Visita à Professora Maria Marotta

            Em janeiro, início deste ano, fui a Visconde do Rio Branco levar minha irmã Sueli para cuidar da sua aposentadoria. No posto de atendimento, do INSS, encontrei o funcionário Braz de Alencar Borges. Era o Ratinho de Dona Euzébia. Estudou no Colégio Agrícola de Rio Pomba de 1971 a 1973, formando-se Técnico Agrícola. Imediatamente o assunto passou a ser  o CARP. Pegou o seu celular e ligou para a Professora Marotta. Sempre chamo  a Marotta de professora, mesmo sabendo que na verdade ela ocupou  o cargo, supercargo, de secretária do colégio.

            Pois bem, o Ratinho conversando com a Marotta lhe disse que tinha, ao lado dele, um aluno da escola. Era o Ildefonso de Guidoval. Ao que ela respondeu "esse menino sumiu, nunca mais o vi". E o Ratinho me passou o seu telefone. Continuei o diálogo com a Professora Marotta. Com uma memória privilegiada ele relembrou, no pequeno tempo em que conversamos, algumas histórias da nossa querida escola.

            Disse-me que, algum tempo atrás, apareceu em sua casa um aluno para visitá-la. Ele formara-se no curso ginasial de 1964. Não era nem Mestre Agrícola, pois a primeira turma de "mestres" só se formou em 1966, como é o caso do meu amigo José Soares Furtado (Dezinho) que é um desses pioneiros.

            Portanto, já havia passado mais de 50 anos. E o menino não era mais um menino e sim um  senhor que tinha cabelos brancos e já um pouco gordo.  E claro, totalmente diferente da criança que estudara na década de 60.  Conversa vai, conversa vem, ele queria porque queria que a Marotta soubesse o nome dele. Aí ela lhe pediu que pelo menos dissesse o seu apelido na escola. Relutante, ele disse que era o "Volks". Pronto, foi o suficiente para ela dizer o seu nome "José Jorge de Freitas" de Guidoval. É meu conterrâneo. Formou-se em Agronomia em Viçosa. Trabalhou na EMATER até aposentar-se. Hoje mora em Santa Vitória, no Triângulo Mineiro.

            Ao encerrar a ligação, prometi à Marotta que iria visitá-la.  E foi o que fiz quando retornei de Guidoval para BH. No dia 14 de janeiro, cumpri com a palavra empenhada. Fui até a residência da Professora Maria Marotta. Fica na praça principal, que agora tem o nome de Dr. Último de Carvalho. Por sinal está muito bonita, remodelada e bem cuidada.

            Anunciei no interfone que era um ex-aluno do Colégio Agrícola que desejava visitar a Dona Marotta. A empregada pediu-me para aguardar e logo depois abriu a portaria.

            Acompanhado da minha esposa e de minha filha subimos pelo elevador. Gostei do aspecto do prédio. Fomos recebidos com a simpatia e doçura da Dona Marotta. Não resisto ao costume de chamá-la  também de Dona ao invés de Professora. E coloco as duas palavras D e P, em maiúsculas, para valorizar, ainda mais, a admiração que tenho por ela.

            A conversa fluiu como coisa que nos víamos constantemente. E ela foi lembrando, relembrando histórias do Colégio.

            Comentei que vi na internet um belo poema dedicado a ela, escrito pelo ex-aluno  Joaquim Carlos de Souza de Tocantins. Hoje, está aposentado como Professor e Diretor de escola estadual.

            Orgulhosa com esta justa homenagem ela me disse que fizeram um banner deste poema e o afixaram no "Cantinho da Roça", uma parada que fica às margens da Rodovia entre Rio Pomba e Tabuleiro.

            Recordou que um dia, na década de 60, chegou o vice-prefeito da cidade de Inhapim. Vinha numa kombi trazendo 12 meninos para fazer prova para ingressar na escola. Disse que não tinha dinheiro para pagar hotel e mesmo alimentar as crianças. A escola não tinha como abrigar a criançada.

            Diante do problema, Marotta telefonou para a sua mãe. Pediu para ela fazer bastante macarronada. Ia levar umas 12 pessoas para jantar e dormir na sua casa. A mãe  deve ter pensado "minha filha está ficando louca". Mas fez a macarronada. Alimentou o pequeno exército de Inhapim e hospedou nove meninos. Os outros três garotos foram dormir na casa de um amigo a quem a Marotta pedira socorro para abrigar os seus visitantes de última hora.

            Quem sabe se no meio desses meninos não estava o querido, sumido e estimado amigo Tampinha, o José Fernandes da Silveira.

            Outra história que ela contou com orgulho e emoção foi sobre o menino José Ronaldo de Magalhães. Ele foi aprovado nos exames. Ela expediu telegramas avisando a todos selecionados informando a data de matrícula, início das aulas, as providências a serem tomadas, enxoval, etc...

            Acontece que começaram as aulas e o José Ronaldo não apareceu. Passaram-se mais uns dias e nada do aluno se apresentar. O diretor Dr. Carlos Martins Bastos falou para a Marota chamar o próximo da lista. Marotta disse "a escola não pode perder este aluno". Dr. Carlos um baiano bem-humorado, diplomado em carioquice no Rio de Janeiro, um "baiaroca", mistura de baiano com carioca, argumentou "eu sei que alunos precisam de escolas e não de escolas que precisam de alunos". E deu mais uns poucos dias à Marotta para preencher a vaga.

            Dinâmica e decidida Marotta pôs em ação o seu plano para encontrar José Ronaldo. Primeiro telefonou, de sua casa, para a prefeitura de Ubá solicitando para encontrar a família de José Ronaldo que morava no local chamado de Santo Anastácio. A (d)eficiente funcionária pública respondeu que não tinha este tipo de serviço na prefeitura. Entrou em contato com os correios que não entregara o telegrama. Alegaram que devido as chuvas as estradas estavam intrafegáveis e não podiam entregar as correspondências nas localidades rurais.  Por fim teve a ideia de acionar a ACAR que atendia os agricultores. Entrou em contato com o agrônomo José do Carmo e lhe pediu este favor. Missão que o Engenheiro Agronômo José do Carmo cumpriu com eficiência. Não só localizou a família de José Ronaldo de Magalhães como os levou, pai e filho, até à escola para matrícula e efetivo início das aulas.

            Agradecidos e emocionados o pai de José Ronaldo agradeceu à Maria Marotta. Humilde, além de bondosa, Marotta respondeu "agradeça ao José do Carmo. Ele é que o responsável por vocês estarem aqui."  Até certo ponto a Marotta tinha razão. Aliás, ela tinha toda razão na sua luta em matricular o José Ronaldo de Magalhães, que depois virou Mestre Agrícola, Engenheiro Agrônomo, com Doutorado e com Pós até no exterior. Vasto currículo que pode ser acessado em: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4781275Y6

            Só depois de quase uma hora de prosa foi que a Marotta resolveu me perguntar "você é o Ildefonso?". Confirmei e completei, apelido Dé, de Guidoval.

            E aí falamos do meu conterrâneo João Coelho. O melhor aluno da primeira turma de formandos de 1971.

Ele fez exame no final de 1968 para ingressar no ano seguinte na primeira turma de Técnicos Agrícolas. Marotta lembra dele chegando na escola, todo tímido e arredio.

            Não fazia parte do exame de seleção uma boa caligrafia, mas a sábia Marotta aproveitava estas ocasiões para analisar os alunos pela letra. Ficou encantada com a letra do João Coelho. Além do mais, ele foi muito bem nas provas de seleção. Aprovado, começou a estudar no colégio.

            Como disse anteriormente, por ser tímido e arredio, a Marotta ficou preocupada com o futuro do João Coelho em continuar os estudos no colégio. Tinha medo dele querer abandonar o curso. Para isto acionou o David Araújo Leal. Um carioca, bom de papo, bom de prosa, de bem com a vida. Falou para o David "você tem que enturmar o João Coelho senão ele vai embora".

            Tempos depois, à noite, durante os estudos dirigidos, a Marotta viu uma sala de aula em completo silêncio. No quadro negro o retraído João Coelho dava aula de matemática para alunos atentos aos seus ensinamentos. João Coelho repassava as aulas do Professor Cardosinho para aqueles que não entenderam a explicação do grande mestre.

            Internamente, acredito que, a Marotta sorriu. João Coelho estava garantido no colégio. Mérito dela e do David que enturmou o brilhante aluno.

                        Dona Marota então fez uma revelação que eu desconhecia. O estudo dirigido, à noite, foi uma invenção dela, dos professores. Dedicavam o seu tempo noturno sem receber um só centavo do governo, de ninguém. Era apenas um ideal, um compromisso, um sonho, em transformar o incipiente Colégio Agrícola numa grande instituição de ensino. CONSEGUIRAM.

            O resultado são os inúmeros alunos que se transformaram em respeitáveis profissionais. A maioria, óbvio, no ramo da agropecuária, mas também outros alunos se destacaram em outras profissões e ofícios.

            Naquele tempo, início do EARP/CARP, já eram instituições de ensino respeitáveis o Colégio o Técnico Universitário (CTU)  e o Instituto de Laticínios "Cândido Tostes", ambos de Juiz de Fora. Pois, agora afirmo, os pioneiros do Colégio Agrícola de Rio Pomba conseguiram se igualar aos estes coirmãos do saber.

            Hoje, onde era, a princípio uma escola para Mestres  e depois Técnicos Agrícolas, agora funciona o Campus Rio Pomba do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sudeste de Minas Gerais, com diversas graduações do ensino superior e até mestrados. Valeu a luta, a perseverança dos pioneiros professores e funcionários. A nossa escola floresceu, frutificou, deu bons frutos.

            E aí, agora, quando escrevo esta tortas linhas,  me emociono ao recordar de tantas e quantas pessoas tão especiais que cuidaram do meu futuro e da educação de tantos meninos vindos das origens mais humildes, de todos os cantos de Minas e recantos do Brasil, que a nossa ESCOLA transformou em cidadãos honestos, dignos, trabalhando por um país melhor.

            Eu tive a felicidade, a real riqueza, de viver e conviver com a Professora Maria Marotta. Registro aqui a minha eterna gratidão.



Ildefonso José Vieira

Mestre Agrícola (1965 a 1968) / Técnico Agrícola (1969 a 1971)



PS1:

A Professora Maria Marotta me presenteou com uma cópia do poema escrito pelo Professor Joaquim Carlos de Souza, conforme pode-se ver nas fotos, abaixo, tiradas pela minha filha Thaís Ribeiral Vieira.



PS2:

A minha esposa, Maria de Lourdes Ribeiral Vieira, levou para a Marotta uma barra de doce de manga feita em Guidoval.



PS3:

Eu presenteie a Marotta com o CD "Gente & Terras Geraes" com músicas de minha autoria, sendo que uma das composições é em homenagem ao saudoso colega e amigo Antônio Teixeira das Graças. A canção se chama "Canarinho, pássaro desta terra, gorjeia no céu"



PS4:

Tenho telefone e endereço da Dona Marotta. Ela me autorizou a repassar aos alunos. Quem se interessar é só me pedir pelo e-mail ildefonsovieira@terra.com.br ou pelo WhatsApp (31)984765207.



PS5:

Tenho inúmeras histórias para contar da nossa Escola Agrícola de Rio Pomba (EARP), do nosso Colégio Agrícola de Rio Pomba (CARP).

Com a ajuda dos amigos e colegas, aos poucos, vamos relembrar estes " casos e causos" no Blog.