Três Leões

 

Em 1984, à porta de minha casa, encontrei um envelope sem destinatário e sem remetente. Curioso, como qualquer pessoa normal, não contive a indiscrição e abri o invólucro.

 

Dentro, a seguinte carta.

 

 

 

África, noite de lua grande.

Prezado desconhecido,

 

Mesmo sabendo que este relato irá se juntar aos aborrecimentos que o cotidiano cisma sempre de aprontar, lancei esta carta ao vento. Que bons sentimentos a adote.

Quero crer que esta missiva acabará por encontrar boas patas, digo mãos.

Deixando de lado o leão-lero e desconversa, sigo adiante.

Sou o caçula de uma família de felinos. Família, por bem dizer, pequena, para leões de plena selva africana. Meu pai tinha tudo para ser o rei. Um dia, uma corja de americanos, em férias, transformaram-no em troféu. Minha mãe, sorte melhor teve, ao faleceu num parto prematuro. Leoa também morre de parto. Inda bem que aqui não tem veterinário. Senão morria era mais.

O companheiro, que está aí lendo, deve de estar pensando:

- Cumé que um leãozinho da selva pode saber de parto, veterinário, correio, o escambau?

Esclareço. Aqui chega, com relativo atraso, a READERS DIGEST.

Antes que a sua a sua paciência me lance ao lixo, digo a carta, espero entrar no assunto que me fez arranhar estas linhas.

Como caçula e órfão, desejo saber notícias de meus dois irmãos, que cedo-cedo, abandonaram a nossa selva, hoje não tanto mais selva, vez que uns caras, serra circular em punho, desbastando aqui, acolá, transformaram a minha selva-terra, mais pra caatinga que pra cerrado. Já tem leônculos, sem erudição, que para ver floresta, andam assistindo filme de Jacques Cousteau.

Mas voltando aos meus dois irmãos. Não repare muito em carta de leão da selva. Sempre se perde no assunto. Vai-e-volta. Vá escutando. Lendo. Um dos meus irmãos, posso adiantar que foi tentar a sorte num circo.

Mania, talvez, de leão querer lamber mulher. Dizem que é bom. Eu mesmo nunca tive a oportunidade. Quem sabe um dia. Também não posso me queixar. Tenho a minha leoazinha que anda me aquecendo em noites de verão e inverno. De quando em vez ela fica uma fera por coisa de nada. Casamento tem dessas.

Voltando a esse meu irmão. O circo tem os seus atrativos. Para leão comodista, nada melhor para fugir da saga desses caçadores fajutos, instintos homenalescos. Sem contar as mordomias. Não é lá nenhuma estatal. Jaula duplex, com algumas leoas serelepes e ainda por cima carne de graça, sem precisar correr atrás de lebres e linces. A bem da verdade carne de gato, que dá disenteria das brabas até acostumar. Mas carne é carne. Ruim são os tempos de vacas magras, do circo. Aí é angu e ração. Quando tem. Mas pior é aqui, na selva, a gente correr, correr, atrás de lebre e depois comer gato por lebre. Isso quando aparece, aqui nesta selva, mais pra mata, caatinga, quase cerrado.

É o meu irmão deve de estar numa boa. Eu só queria notícias dele, quem sabe ele não me arruma uma boquinha no espetáculo. Mesmo de marra-cachorro. Aqueles caras que só trabalham quando o circo não está trabalhando.

A coisa anda feia, prezado desconhecido. Imagine ter cuidar de um tio desdentado. Triste? Ponha-se no meu lugar. Nada mais triste que leão desdentado.

O titio até que não é exigente não. Qualquer bolinho de soja, parecido com carne, não sei quem falou que o gosto é parecido, lhe satisfaz.

Acontece que a soja que tínhamos aqui virou produto de exportação. O FMI não dá sopa não. Pobre do meu tio, logo ele que criou a FUNANIMAL, sociedade séria, sem desvios de verba, presidente com eleição direta.

- Para quem só a READERS DIGEST, esse leão anda conjecturando mais que político mineiro de antigamente.

Tá vendo, amigo, já parti para a intimidade, como nos enganamos com as aparências. Aqui, com um pouquinho mais de atraso, chega a Folha de São Paulo, Financial Times, JB, Le Monde, Pasquim, Saca-Rolha (jornaleco de Guidoval, cidade pequena do interior de Minas) e outros informativos. Se eu dissesse isto no início, você ia ler a carta? Lia é que nunca.

Com união, montamos uma pequena biblioteca. Leão alfabetizado já anda numa pindaíba danada, imagine analfabeto.

Só não consegui ler o “Capital”. Achei maçante e de massa nem leão italiano, se é que existe, há de gostar.

Vê-se localiza o meu irmão circense e me mande notícias.

Calma, não terminei ainda os meus pedidos. Esqueceu-se do meu outro irmão? Não sei o seu paradeiro. Dizem que foi parar no zoológico. É bem provável. Não gostava nem de cofiar a juba. Daí compreende-se a sua inoperância, um acomodado. Em se tratando de leão é pior que jejum de carne na quaresma.

Dizem à boca pequena, reparem só a boquinha do Jacaré fazendo fofoca, que zoológico não passa de um cercado, cheio de bichos sonolentos, preguiçosos, onde pais imbecis, no fim-de-semana, levam seus filhos, que por sua vez, na santa ignorância pueril, despejam pipocas, elefantes, macacos, zebras, a-tudo-quanto-é-bicho.

Mesmo com estes desacertos, imperdoáveis, há algumas recompensas. Comida de graça, abrigo dos temporais, sem BNH, isto no tempo em que havia o SFH, desobrigatoriedade de título de eleitor. Também votar em quem?

Meu relato, desvia-se em alegorias. Enfim de circos e zoológicos, de parasitas e palhaços, o mundo está repleto.

Para encerrar, alguns detalhes dos meus leãomanos.

O Ré Beleão, que aderiu ao mundo circense, possui debaixo da orelha direita, uma pinta vermelha, em forma de estrela. Em se tratando de pessoa bastante detalhista, você notará pequena cárie, no leonino (canino), superior esquerdo.

O Sossé Galeão, que preferiu o zoológico, puxa da perna (pata) esquerda, sem desmunhecar. Ao atento observador, não escapará que um dos fios da espessa juba, identifica-se perfeitamente com a cor azul-outono-celeste.

Reconfortado, por sua prestimosa atenção, aguardo novidades, empenhando minha gratidão antecipada.

Pela desgraça do Tarzan. Um amplexo de,

 

Leão Felis Leo

 

 

Muitas luas grandes e pequenas depois, pude mandar à selva, cheirando à mata, bem caatinga, quase cerrado, pelos pés e asas de um pombo-correio com quem fiz amizade, a carta abaixo.

 

 

Vereda-do-imbuzeiro, Noite de Frio e Chuva.

 

Feramigo Felis Leo,

 

A sua correspondência, por circunstância do destino, aportou em minhas mãos. Com o propósito de dignificar um pouquinho os homens, decidi investigar o paradeiro de seus irmãos.

A princípio, não percebi as dificuldades em identificar uma estrela vermelha, sob a orelha, tampouco o fio azul-outono-celeste na juba de um leão. Tardiamente, compreendi que nem os domadores e mesmo os zoozeladores, possuem laços tão íntimos com os felídeos, para desvendar tais particularidades e peculiaridades.

Resolvi, por questão de comodidade e prudência, pesquisar por outros caminhos. Acredito, com ressalvas, ter atingido o meu e o seu objetivo.

Confesso que a minha mania por frequentar cinemas, me ajudou a descobrir o Ré Beleão. Para surpresa minha, sua e do tio desdentado, asseguro-lhe que seu irmão, trocou o circo pelo cinema. Sua função restringe-se a sorrir. Melhor dizendo, bocejar no início das películas da Metro.

Não sei como pude demorar tanto em enxergar a cárie no leonino (canino) superior esquerdo.

Agora você certamente há de querer me interrogar: E o Sossé Galeão? Sossega leão, digo eu. Calma. Localizei-o.

Pela descrição que você me fez, não mudou muito. Burocrata. Trocou o zoológico pela Receita Federal. Travestiu-se, com ou sem segundas intenções, em leão-propaganda do imposto de renda. Sabe aquela pata, perna, manquitola? Já desmunheca, sinto em dizer.

Sabe, amigo Felis Leo, agora gostaria de lhe dar um conselho. Palavra de quem nunca foi ou pretende ser caçador, fique aí na sua selva, cheirando a mata, bem caatinga, quase cerrado, com o seu tio desdentado, suas ambições, seu reino por uma lebre, com a leoa de tantos verões e invernos, mas poupe a sua raça de tantos e mais desatinos e desconsolos. Não se venda. Não se corrompa. Não queira vir para a cidade, principalmente cidade grande. Isto aqui é uma selva para animais mais ferozes, assim tipo homem. Mesmo que no amanhã próximo, um americano, dois brasileiros, duzentos russos, quatrocentos e noventa e um ingleses, novecentos e oitenta e dois indianos, mil novecentos e sessenta e quatro pinochet's o transforme num troféu inútil. Vale a pena você correr o risco por aí mesmo.

Fique na sua floresta, mesmo que já não seja tão floresta como antigamente. O mundo precisa de pessoas, animais puros como você. Aí estará mais protegido. Acredite se quiser.

Achei os seus irmãos, que você não se perca.

 

Um abraço, do amigo, de signo ascendente.

Com a garra de sempre ...

 

Ildefonso DÉ Vieira (1984)