Sangue do meu sangue      ( 30/10/84 )

 

Sinto esvair-me em sangue por todos os poros,

cada centímetro de meu corpo, em pálida mina se transforma.

Jorra em filetes, líquido que os leuquêmicos reclamam,

como se suor vermelho fosse, hemofílico, que não coagula.

Hiperglicêmico, insípido, que não adoça,

a realidade insalubre.

 

De meus olhos míopes e astigmáticos,

gotícula de lágrima rola mansa,

aos bêbados, aos magérrimos da Etiópia,

aos lunáticos e encarcerados em nosocômios.

 

Pelos meus dedos, por dentre as unhas,

escorrem o mel, que ao corpo alimenta,

pelos mendigos, que mesmo a esmola abnegada, já não satisfaz,

pelos manetas, frutos de guerras, concebidas sobre tapetes,

entre uma trepada e outra e ar condicionado.

 

De meus pés varicosos e calo temperamental,

a merejar, como se vinho fosse, escorre lânguido,

a denunciar, pelos retirantes, que rastejam sertão e fome,

pelos andarilhos, dos desertos, dos mares,

dos asfaltos, da via-crucis.

 

De minha boca, por entre os dentes, como se um  drácula fosse,

rubro córrego, desliza a reclamar,

por emudecidas vozes de profetas,

pelos eternos amores sufocados,

pela cúmplice mudez dos líderes,

pela rouquidão dos povos assalariados.

 

Pelo meu ventre infértil, roliço, preguiçoso, banhas de sedentária burocracia,

lagos a se formar, em rubor gritante,

por barrigas famintas de desamparados trombadinhas,

por gentil braçal desempregado, pelos ladrões de galinhas

em quintais que nem mais se habitam.

 

Por minhas pernas vadias, irregulares,

dissipam-se calores, de hemácias,

em éter inebriante a protestar,

pelos atletas, abandonados pela glória,

por paraplégicos de governos doentios,

pelos eternos aleijados de consciência e caráter.

 

Por meus braços de músculos frágeis; de abraços inúteis,

gotejam, rios da cor que se diz comunista,

a esbravejar, por pelegos a se baterem por patrões,

por lavradores que não saciam a própria boca,

por operários que não aliviam a própria sede.

 

De meus ouvidos puídos, sedentos de música e poesia,

arvorados de justiça própria,

bloqueado de cerume, cor de pitanga e amora,

inflama, blasfema, pelos porões em que enclausuram a liberdade,

pelas fossas imundas em que se depositam falsa democracia,

pelo vácuo inútil em que se penalizam as virtudes.

 

De meu cérebro, também retrógrado,

vasos indecifráveis, incomunicáveis,

vertem em furor, ondas sangüíneas,

revoltas a vituperar contra sandices de inimigos,

pelos irmãos de menos sorte e desfortúnios,

por fariseus, crentes e o menino quase anjo,

pelos proscritos, exilados e anônimos,

por todas as formas que se traduzem cruel.

 

mas o corpo é bem maior que todas as palavras antes ditas.

pobre de meu corpo a esvair-se em sangue por todos os povos.

pobre de minha gente a esvair-se de poros por todos os sangues.

 

O agnóstico ainda dirá :

-         Mas tudo e tantos, disse e não disse, e outras e tantas e mais e tais.

Insisto :

-         Sinto esvair-me em sangue por todos os poros.