Precoce Demência   (27/09/84)

 

Não te conheci semente,

gema rara, jóia de grandeza,

a germinar frágil,

com cuidados de bons jardineiros,

a brotar num campo distante,

longe de meus ventos e orvalhos,

Semente de meu bem guardar.

 

 

Não te conheci menina,

da amarelinha e bonecas-fantasias.

Pés descalços a percorrer riachos de chuva,

travessuras pueris, castigos adultos.

Menina-flor, purificada e santa.

 

 

Não te conheci jovem,

revolucionária, sonhadora e feliz.

Pele suave, quadris estreitos,

puberdade na face e famintas insônias.

Andarilha e poetisa a flutuar em versos.

Mártir de uma liberdade questionada,

jovem-pétala, febril e linda.

 

 

Te conheci mulher,

tímida, calorosa, aconchegante.

Eu a caminhar, sonetos escusos,

enquanto navegavas por poemas sadios.

No prelúdio da noite, nos beijamos,

em madrugadas boêmias, nos amamos,

mulher-perene, segredo de minh`alma.

 

 

Não te conheço matriz,

diferença não faz, não acrescenta.

Possuis a fertilidade das estepes,

onde vicejam orquídeas raras.

Tens a multiplicidade dos templos

em que se cantam todas as orações.

Matriz de meus dias meditativos.

 

Te perenizo no universo

e te proclamo : minha.

E mesmo que as minhas profecias,

em falsas acontecências se resumam

e de tolo e charlatão, o mundo me chame...

Insistirei em cantar :

Minha semente, menina, jovem, mulher, matriz...

Universo de minha precoce demência.