Olhos Vendados   (27/09/84)

 

O poeta não pode fechar os olhos e sonhar.

Bom seria a vida no sonho do poeta, da criança, do bêbado otimista.

 

O poeta abre os olhos e percebe, o pesadelo , a realidade.

 

O mendigo, que não esmola caridade,

mestiço vadio, a bolinar etnias.

 

O ritual dos versos e profetas apocalípticos,

verbo desnutrido, sem consistência, desativado.

 

O tolo a blasfemar infames modismos,

lacaio, corrupto, a se promover presidente.

 

O inocente, acorrentado à simplicidade,

senzala dos gemidos e amores bastardos.

 

O verde do campo semeado de poluição,

cinza da cidade, tinto de opressão e pressa.

 

O rio que corta a minha cidade, sujo, morto.

 

O sol da justiça, a esconder mesquinharias,

nos confins sombrios, deserto de idéias.

 

As aldeias insípidas, despojadas de líderes,

em matizes daltônicas, esvoaçar de borboletas descoloridas.

 

O colibri receoso de flores e néctar contaminados.

 

O operário incrédulo do fustigante amanhã,

do emprego, do salário, sabre de cobre, a cortar o futuro, o presente.

 

As múmias envoltas em secular silêncio,

zumbis, aparvalhando consciências puras.

 

Militares triunfando batalhas inúteis,

guerrilheiros, zombando fúteis estratégias,

curandeiro a propagar falsos milagres,

ministros, em bacanais de supra-poder.

 

O anão a se projetar em sombra-gigante,

velho samurai, prisioneiro de cultura tirana.

 

O sexo em orgias de fingido êxtase,

prazer em fatias, migalhas do nem aí.

 

O jovem servil a-deus e ao diabo, a este principalmente,

perdido no pecado em busca da absolvição incoerente.

 

A florista pacificando, perfuma esperanças e corações.

 

O santo, quase santo, nem tanto santo,

a desmitificar cânones.

 

O poeta, num piscar de olhos, delira,

vislumbra desacertos e virtudes da vida.

E só.