Marcão: um caso sério

 

O saudoso Marcos Afrânio Barbosa Ribeiro, mais conhecido por Marcão, com certeza, foi um dos mais conceituados Técnicos de Distribuição da CEMIG, função esta conhecida antigamente por Auxiliar de Engenharia. Várias gerações de técnicos aprenderam a trabalhar com ele, inclusive eu. Aposentou-se, por tempo de serviço, como Chefe da importante Seção de Projetos da Região Itambé, que atendia ao centro financeiro, político, cultural, econômico e social de Belo Horizonte.

Criativo, determinado, em emergências fazia projetos até em papel de padaria ou de açougue. O importante é que se a obra era pra ontem, ficava pronta “antonte”.

Fumante inveterado, seus projetos feitos em papel vegetal (é verdade, houve tempo em que os projetos eram feitos em papel vegetal), os dele nem precisavam da sua assinatura, bastava verificar se estavam queimados, amarelados, por uma ponta de cigarro, que insistia não parar dentro do cinzeiro, repleto de “bingas”. É verdade... Também houve tempo em que se fumava desbragadamente nas salas de trabalho. Quase todo mundo fumava.

Os casos mais inusitados aconteciam com o Marcão. Agora, quando contados, parecem mentiras, “estórias” de pescador. Não entanto são reais, de fato aconteceram.

Vou me ater apenas a algumas situações vivenciadas por ele. Passemos aos acontecimentos.

Uma ocasião, fazendo levantamento topográfico para um projeto de Rede Rural, Marcão avistou uma mangueira carregada de frutas. Nem pestanejou, pegou a baliza e atirou rumo aos galhos mais altos onde ficam as mais suculentas e saborosas. A baliza desapareceu entre as folhas e ramagens.

Marcão colocou a mão sobre a testa, numa continência mal feita de quem nunca serviu nem Tiro de Guerra, procurando enxergar a baliza que sumira. A estaca (vara metálica) parece que estava brincando de esconde-esconde, para depois retornar de ponta ao ponto de origem atingindo a fronte e a testa do desajeitado técnico. O estrago só não foi maior, pois a mão que servira de viseira o protegeu e amorteceu o impacto da baliza sobre o rosto do nosso amigo.

Em outra oportunidade, executando medições com uma trena num terreno coberto por capim gordura, Marcão, andando de costas, de repente desapareceu. O técnico que o ajudava na tarefa ficou desesperado com o sumiço repentino do colega.

Seguindo a fita da trena, assim como Teseu, da mitologia grega, utilizou novelo para sair do labirinto construído por Dédalo, ele encontrou o Marcão no fundo de uma cisterna aberta e abandonada no meio do matagal.

Ajudou-o a sair do fundo do poço e tomou o maior susto, pois Marcão estava todo ensangüentado. Felizmente não fora nenhum ferimento grave, apenas Marcão caíra em cima de um sapo desafortunado que se encontrava no fundo do poço atrás de insetos ou de uma sapa saliente.

Distraído como os gênios (Einstein também era assim), Marcão algumas vezes “bateu o cartão de ponto” (teve época, sim senhor, que existia cartão de ponto) antes do término da jornada de trabalho, induzido por colegas que batiam o relógio como se tivessem terminado o expediente. Ele se orientava pelo tilintar do barulho característico da maquininha dedo-duro, delatora dos desidiosos.

Andava sempre com um jornal debaixo do braço. Certa feita subiu o elevador do seu prédio e parou em um andar diferente do seu. Encontrando a porta do apartamento aberta, entrou sentou no sofá e se pôs a ler o jornal. Os moradores da casa ficaram estupefatos pela inesperada intromissão do vizinho em sua sala de estar. Só depois de alguns minutos é que Marcão notou que havia algo de estranho, errado. Educado, gentil, à sorrelfa, desejou boa noite aos vizinhos e subiu mais um andar, adentrando em sua verdadeira residência.

Para não cansar a paciência dos leitores, mesmo tendo outras histórias a contar do Marcão, não posso deixar de narrar esta que ocorreu quando dirigia o carro de seu pai, notável Juiz de Direito de Boa Esperança.

Dizia-nos, o Marcão, que uma vez ia para a fazenda de seu tio, dirigindo o Buick de seu pai, quando viu passar por ele um pneu a uma boa velocidade. Logo à frente, na primeira curva, o pneu seguiu reto, despencando ribanceira abaixo. Sumindo. Achou estranho, olhou o retrovisor, não viu nenhum carro seguindo-o. Continuou a viagem até que parou para abrir uma porteira. Nesse momento o veículo, estável e confortável, deu um baque e quedou-se a parte traseira esquerda, pára-lama ao solo. Só então pôde notar que faltava uma roda, justamente a roda traseira esquerda. A mesma roda que o havia ultrapassado uma légua lá atrás.

Poderia continuar falando das histórias do Marcão como aquela fêmea de dourado encalhada no vertedouro da Usina de Rio de Peixe. Só lhe restou enfiar o guarda-chuva, que carregava entre as guelras da “salminus brevidens” e soltá-la represa acima, dando a sua valiosa contribuição à piracema. Mas esta história, poucos iriam acreditar, achar que é papo e “causo” de pescador. Melhor nem contá-la.

Se duvidarem do que escrevi é só perguntar aos aposentados Irineu Clemence de Bernardi (Nova Lima), Paulo Schettini (Muriáe) e Olegário Martins Vieira (São Pedro dos Ferros - agora no céu); ou então ao Dênio Alves Cassini (Belo Horizonte), este ainda na ativa, contribuindo para o progresso da CEMIG.

 

escrito por Ildefonso Vieira

Marcos Afrânio Barbosa Ribeiro no Jockey Serra Verde - década de 1970
Da esquerda para a direita
Dé Vieira, Lourdes (esposa do Dé), Sueli (irmã do Dé), Marcos Afrânio (Marcão), o treinador do cavalo vencedor de um dos páreos, o Jóquei, o proprietário do cavalo e Ângela (irmã do Dé).
Foto tirada em 1978 no Hipódromo Serra Verde