Juiz de Embaixada

Jogar na cidade de Ervália sempre foi uma missão de guerra, quase suicida. Pelo menos antigamente.

O nosso glorioso Cruzeiro, preto-e-branco, numa dessas incursões, sofreu mais que peixe no nosso poluído Rio Chopotó.

A tradição mandava que o time visitante levasse o juiz. O famoso juiz de embaixada. Este nome se deve mais porque antes de juiz e profundo conhecedor do esporte bretão, o árbitro teria que agir como um diplomata a administrar botinadas, ponta-pés, hostilidade e um resultado que agradasse a todos. Em síntese, uma tarefa impossível.

Num desses entreveros, pois na realidade o que menos existia era competição esportiva, o juiz de Guidoval, escalado para apitar o confornto, após alguns desagrados à torcida local, foi expulso. É verdade. Naquela época, era muito mais comum um juiz ser expulso, que um jogador.

Tiveram que arranjar outro mediador para a contenda.

A muito custo, outro herói destemido do nosso Sapé, aceitou a incumbência de levar a termo a disputa.

Pouco tempo se passou e a solução era novamente substituir o árbitro.

Daí não houve jeito de conseguir outro atrevido nas hostes do Sapé.

Para prosseguimento do embate foi aceito um juiz local. Não tardou muito e marcou um penalti. Óbvio, a favor da agremiação da cidade de Ervália.

Em nome do espírito esportivo, não sem antes um pequeno tumulto, a penalidade foi batida.

Acontece que o nosso goleiro, goal-keeper, em sinal de protesto e revolta, cruzou os braços e nem sequer esboçou uma reação na tentativa de impedir o goal.

O juiz anulou a cobrança, mandando repetí-la. Antes, contudo, impôs ao Hélio Lagartixa, o nosso goleiro que ele deveria se esforçar para impedir o goal. Tinha que pelo menos pular.

A sua atitude anti-desportiva poderia responsabilizá-lo pela fúria da torcida local e tudo mais que pudesse ocorrer. O juiz, intimou ainda um mis-en-scene desde que não pegasse a bola.

Frente a esta chantagem, o nosso goleiro, Hélio Lagartixa, apenas simulou vontade em defender a sua meta.

A equipe de Ervália venceu o metting. Nossos jogadores e torcedores sairam da cidade sob uma chuva de pedras.

Em tempo:
O céu era de brigadeiro.