Homens de Visão

            A Escola Agrícola de Rio Pomba (EARP) foi inaugurada em 1962. É fruto do sonho e trabalho político do Dr. Último de Carvalho que encontrou no dinamismo do Presidente Juscelino Kubitschek a sua concretização.
            As primeiras turmas iniciaram o ano letivo em 1963. Pouca gente sabia da existência da escola. Era uma incógnita. Os pioneiros de Guidoval, minha cidade, foram o José Jorge de Freitas, filho do alfaiate José Alves de Freitas que era também Maestro da Corporação Musical Belarmino Campos e o menino Antônio de Pádua Ribeiro Ramos filho do Paulo Ramos, motorista profissional. O José Jorge entrou no terceiro ano ginasial e completou o quarto ano em 1964. O Antônio de Pádua cursou do primeiro ao quarto ano, sendo da primeira turma de Mestres Agrícolas, formando-se em 1966.
            Mesmo com tão pouca informação sobre a escola, meu pai, José Vieira Neto, boiadeiro, açougueiro, caminhoneiro, conhecido pelo apelido de Zizinho do Marcílio, fez a minha inscrição para o exame de admissão para o ano letivo de 1964.
            Fiz as provas, obtive nota acima da média, mas não o suficiente para ser classificado. Fiquei excedente. Houve uma certa expectativa de que seriam aumentado o número de vagas para aproveitamento dos candidatos excedentes. Mas a deposição do Presidente João Goulart em 31/03/1964 desfez estas esperanças. Fui, indiretamente, atingido pelo Golpe de 64.
            Assim, em 1964 estudei o primeiro ano no Ginásio Guido Marlière de Guidoval. Em 1965, meu pai levou-me, de novo, para fazer provas na Escola Agrícola de Rio Pomba. Desta vez fui classificado e aprovado. Mesmo já tendo passado para segundo ano ginasial em Guidoval fui para a EARP repetir o primeiro ano.
            Nesta mesma ocasião, foram aprovados na prova de admissão dois meninos. Um de Ubá, o Eli Carlos Vieira, filho do Sr. João Vieira, operador cinematográfico/maquinista do Cine Brasil. O outro garoto foi o Carlos Eugênio Martins, da cidade de Rodeiro, filho do agricultor Sr. Agnelo Martins.
            Meu pai sabia o quanto pesava no bolso estudar um filho. A recém-criada escola de Rio Pomba foi opção que ele encontrou a propiciar-me um ensino gratuito. A outra solução eram os seminários. Três primos estudavam no Seminário Nossa Senhora de Lourdes em Eugenópolis/MG e um primo no Seminário Claret da cidade de Rio Claro em São Paulo.
            Na Escola Agrícola de Rio Pomba o aluno tinha direito a moradia, alimentação, atendimento médico e odontológico, sala de enfermagem, vestuário completo (uniforme de gala e para o do dia-a-dia, macacão para trabalho de campo, sapatos, botinas, coturnos, roupa de cama, cobertor, lençóis, toalhas). Tinha biblioteca, estudo dirigido. Uma disciplina rígida, com hora para dormir, acordar, alimentar-se, estudar e práticas esportivas.
            O quadro de funcionários contavam com mestres agrícolas, ferreiro, dentistas, médicos, enfermeiros, bibliotecários, cozinheiros, auxiliar de nutrição, guardas, inspetores de alunos, serventes, trabalhadores de campo, eletricista, mecânico, carpinteiro, sapateiro, pedreiro, datilógrafo, motorista, tratorista, escriturário, assistente social, entre outros.
            Os professores eram engenheiro civil, agrônomo, laticinista, zootecnista, advogado, médico, dentista, ex-padre, bioquímico. Uma babel de saber à disposição dos alunos.
            Meu pai apostou numa escola em fase de implantação. Jogou na loteria e eu fui o premiado. Minha formação educacional e profissional se fez no Colégio Agrícola de Rio Pomba.
            E eu sou grato ao meu pai e a minha mãe que tantas vezes socorreu à Maria Marota para conseguir isenção nos uniformes de gala, no fardamento e enxoval exigido pelo colégio. Sou eternamente grato aos professores e funcionários do colégio responsáveis pela minha formação
            JK deu rumo ao Brasil, que hoje anda se perdendo pelo caminho diante tanta desonestidade dos políticos
            Com a criação da Escola Agrícola, Dr. Último de Carvalho deu sustentação à economia de Rio Pomba. Hoje empresta o seu nome, merecidamente, à praça principal da cidade.
            O Sr. Agnelo Martins de Rodeiro; Sr. João Vieira de Ubá e o meu pai Sr. José Vieira Neto de Guidoval deram rumo à vida de seus filhos quando os levaram para estudar na Escola Agrícola de Rio Pomba. HOMENS DE VISÃO.

HOMENS DE VISÃO, assim como todos os pais de inúmeros alunos que estudaram na Escola/Ginásio/Colégio Agrícola de Rio Pomba. Uma pequena parcela destes alunos irão se encontrar em Rio Pomba no dia 3 de dezembro para reverenciar e agradecer aos mestres, professores e funcionários deste educandário que se transformou numa grande instituição de ensino.

A GRATIDÃO é um sentimento para pagar o que não tem preço.