Anos JK

Como acontece em qualquer ano, 1.959 teve as suas histórias para contar.

Pelas ruas, da então pacata Belo Horizonte; ouvia-se assobios da marchinha "Engole ele, paletó", sucesso carnavalesco no ano anterior.

A Igreja São Francisco de Assis, na Pampulha; construída na gestão do então prefeito Juscelino Kubitshek, depois de longos anos interditada pelas autoridades católicas; era benzida por D. João de Resende Costa. Este lindo projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer, com murais de Portinari , jardins de Burle Marx e painéis em baixo relevo do escultor Alfredo Cheschiatti, ainda embeleza a nossa cidade.

O nosso mineiro de Diamantina, na presidência do Brasil; alçava vôos mais ambiciosos, na construção da nova capital, Brasília.

O país vivia momentos de cívica ressaca com a conquista da Copa do Mundo na Suécia, recebia os nossos campeões mundiais de Basquete e a tenista Maria Ester Bueno, campeã do torneio de Wimbledon.

O Cinema Novo mudava os rumos da sétima arte, no país; Glaúber Rocha filmava Barravento. O filme "Orfeu do Carnaval" recebia a Palma de Ouro no festival de Cannes

O disco "Chega de Saudade" , de João Gilberto, marcava o início da Bossa Nova.

Democraticamente o país se livrava da Revolta de Aragarças.

Enquanto toda esta efervescência ocorria, no bairro São Lucas, a boêmia marcava presença através de Paulo Papini, Múcio e outros.

Vendo o peixe pelo preço que comprei, ou quase.

Após uma noite-madrugada, de um sem número de doses generosas de whisky e saideiras, colóquios etílicos, repletos de filosofias e soluções para todos os problemas do mundo, às 5 horas da manhã, o Múcio chega ao seu tugúrio.

Recebido pela companheira de todas as horas e a bondade das esposas compreensivas aos noctívagos, Múcio é interpelado :

- Isto são horas ?

Com o jornal Estado de Minas sob as axilas e tentando manter um equilíbrio que o álcool já não permitia, Múcio devolve com ares de suspeito espanto :

- Você não sabe ?

- Sabe o quê Múcio?

- O Errol Flynn...

- Que que tem o Errol Flynn ?

Com se a notícia pudesse causar grande dor à esposa, foi dando-a em conta-gotas.

- O ... Errol ... Flynn ... morreu ...

- MÚCIO... e o que é que você tem com o Errol Flynn ?

- Eu... eu não tenho nada, mas o Paulo (Papini) está inconsolável.

E com ares de quem é eternamente solidário aos amigos, adentrou a sua casa, tentando manter a pose nos passos e nos gestos.

No caminho, para a sua cama, em busca do repouso necessário, cumprida a missão de amenizar a tristeza do amigo, deixou sobre a mesa o Estado de Minas, onde se lia a manchete : MORREU ERROL FLYNN.